Gatos e crescimento de VG dificultam o abastecimento regular de água, diz DAE

Ao assumir a presidência do Departamento de Água e Esgoto (DAE) de Várzea Grande, no início de 2021, Carlos Alberto Simões de Arruda já podia prever o desafio que lhe esperava: lidar com a crise de abastecimento de água que enfrenta o município.
Já em fevereiro do mesmo ano, veio o primeiro problema. Por um problema eletromecânico em uma Estação de Tratamento de Água (ETA), ao menos 10 bairros tiveram o acesso à água prejudicado. Mesmo com a aquisição do maquinário, Várzea Grande está distante de conseguir atender toda a população.
Simões conversou com o RDNEWS nesta semana e, de acordo com ele, um dos fatores que dificulta o abastecimento são as ligações irregulares, os chamados “gatos”, o crescimento desenfreado do município e a complexidade com a gestão do saneamento.
“Acontecem muitas perdas por inadimplência e ligações indevidas e irregulares. Hoje, falamos em torno de 40 mil ligações irregulares em um universo em torno de 80 a 90 mil ligações. Quase a metade está como ligação irregular”, disse.
Veja abaixo os principais trechos da entrevista
Quais são os principais problemas identificados no sistema de abastecimento em Várzea Grande?
Felipe Albuquerque
A questão da água não é um problema fácil de resolver. Nós tratamos de funções eletromecânicas e por mais que você faça a proteção, ela falha. É um desgaste normal de um equipamento que funciona 24 horas por dia e precisa fazer um descanso obrigatório para fazer a compensação e a manutenção disso.
O saneamento tem quatro vertentes: o tratamento e distribuição de água, a coleta, o tratamento e a distribuição do efluente já tratado, além da coleta e destinação dos resíduos sólidos e a questão da drenagem. Então é preciso ter um olhar do saneamento como um todo.
E quais foram as soluções encontradas?
Especificamente no DAE a gente pode falar de várias ações. Fizemos um primeiro esboço de planejamento para os 4 anos da administração do Kalil Baracat. Separamos em quatro grandes linhas, que é a oferta da água, a qualidade da água e do esgoto, as despesas e a manutenção e o planejamento dessas ações que a gente precisa fazer. Não é uma coisa tão simples, é complexa porque é muito dinâmica.
Existem relatos do desabastecimento de casas que chegam a ficar dias sem água. Ao que isso pode ser atribuído?
Houve um problema no dia 4 de fevereiro, por exemplo, que uma descarga elétrica ocasionou a queima de um dos motores e o sistema de proteção desse motor. Tínhamos dois motores em funcionamento, um que era o reserva e o outro que funcionava. O que estava em funcionamento queimou e está na bancada para fazer a recuperação. A gente tem a determinação do prefeito para aquisição de um novo bombeador, e isso demora de 40 a 50 dias. Então é um aparelho específico para atender essa demanda.
Então você considera que sejam problemas pontuais? Não existe um fator específico para o problema como um todo?
São pontuais. O que acontece é que a gente não pode de ter esses conjuntos prontos para substituir essas eventualidades. O que aconteceu é que nós não tínhamos um terceiro conjunto para substituir, porque esse que está funcionando a qualquer momento pode pifar e eu não tenho essa terceira opção. Um está em reforma e eu não tenho mais o segundo.
Com a chegada desse equipamento, grande parte dos problemas de abastecimento será solucionada?
Na verdade, estamos falando de produção. De abastecimento e distribuição é outra conversa. O que acontece é que não temos volume produzido suficiente para atender a população de Várzea Grande. Acontecem muitas perdas por inadimplência e ligações indevidas e irregulares. Hoje, falamos em torno de 40 mil ligações irregulares em um universo em torno de 80 a 90 mil ligações. Quase a metade está como ligação irregular.
E de que maneira isso influencia no desabastecimento?
Imagine que você tem uma caixa de água de mil litros e o seu vizinho tem uma de 400. Só que ele não tem bóia e não tem medidor. Ele não paga e você paga pelo bem finito que é a água. Ele não cuida, deixa desperdiçando porque não tem o compromisso do bolso dele que a água seja usada racionalmente.
Quais outros problemas podem ser atribuídos ao problema de distribuição?
“Pode acontecer uma Parceria Público Privada? Pode. Mas isso vai se desenhar ao longo do tempo, e não da forma que está hoje”
Carlos Alberto
O que aconteceu e o que acontece ao longo do tempo é que Várzea Grande cresceu muito e cresceu muito acima do crescimento médio nacional. É difícil cumprir o planejamento por melhor que ele esteja desenhado. Você pode planejar o crescimento de uma cidade de uma cidade para uma média de 1,6% ao ano, e aqui nós estamos trabalhando com um crescimento de 6% a 8%. Isso é um volume muito grande.
Existe um percentual de quanto de esgoto é tratado?
Entre coletado e tratado temos 22%. Mas temos em andamento uma estação de tratamento para que 60% da população seja atendida. A gente está falando de um conjunto como um todo, também as redes coletoras e as ligações domiciliares dessa bacia, que é a bacia 2. Não chega aos 82% de esgoto tratado porque a conta não é dessa projeção. Nós estamos falando de 22% que está sendo tratado, e parte desse universo que hoje vai ser beneficiado com essa estação já é tratado e vai ter uma destinação mais duradoura. Isso faz parte do Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC) e tem o valor de R$ 83 milhões.
Há a previsão de construção de novas estações de tratamento de água e esgoto?
Estão em curso 3 estações de tratamento de esgoto e 2 estações de tratamento de água. De esgoto é da Ginco, Chapéu do Sol e Parque Genebra. De água é do Cristo Rei e do Chapéu do Sol.
Os problemas de distribuição e abastecimento acontecem necessariamente na periferia ou atingem outras partes do município?
É a situação da cidade como um todo. Quando a gente fala em abastecimento de água, temos que equalizar o sistema. Temos dois grandes sistemas, o 1, que é o mais antigo que atende o Centro, e o sistema 2, que atinge a região do Mapim, Jardim do Sol, São Matheus. Então são sistemas distintos e o tratamento é feito de forma separada. Eles não se interligam ainda e a ideia é fazer a interligação desses sistemas e fazer um manejo e um equilíbrio mais adequado para esse sistema de produção e distribuição.
O que será feito a curto prazo?
Temos em curso estudos detalhados dos sistemas de abastecimento. Nós já estamos desenhando a instalação de 12 macromedidores que vão poder medir o que é bombeado, o que é produzido e o que é distribuído. Isso é importante para a gente poder saber o quanto está se perdendo. Enquanto a gente não souber disso, nós estamos apenas imaginando que as perdas sejam grandes ou pequenas. Eu preciso saber se a água que sai da estação está chegando aonde precisa chegar. O que temos hoje são controles empíricos, que não funcionam com o detalhamento mínimo que a gente precisa.
Felipe Albuquerque
Há a estimativa e expectativa de que o DAE seja concedido para a iniciativa privada?
Quando a gente fala de formas de gestão, tudo é possível. Eu fui colocado aqui para que isso não aconteça. O prefeito é contrário inicialmente à privatização, mas o que eu quero dizer para a senhora é que nós precisamos de um investimento aproximado de R$ 400 milhões ao longo do tempo, e isso é muito dinheiro. Se qualquer empresa for comprar o DAE, vai pegar de onde o dinheiro? Vai pegar dinheiro público. Então é muito melhor nós tomamos a frente disso e fazer com que aqui não tenha lucro, mas que o atendimento a comunidade seja feito com qualidade e decência. Pode acontecer a privatização? Pode. Pode acontecer uma Parceria Público Privada? Pode. Mas isso vai se desenhar ao longo do tempo, e não da forma que está hoje. Não existe nenhuma tratativa no momento.
FONTE: RDNEWS